Notícias

23/04/2019SUBSTITUIÇàO DO DIESEL POR “GNL” PERMITIRIA ATÉ 60% DE ECONOMIA E REDUÇàO DE POLUENTES

A substituição do óleo diesel pelo gás natural liquefeito (GNL) no transporte de carga reduziria significativamente o custo do combustível e as emissôes de gases de efeito estufa e outros poluentes no Estado de São Paulo. É o que mostra um estudo conduzido no Centro de Pesquisa para Inovação em Gás (RCGI), constituído pela FAPESP e pela Shell.

Com sede na Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (Poli-USP), o RCGI é um dos Centros de Pesquisa em Engenharia (CPE) financiados pela FAPESP em parceria com grandes empresas.

“Os maiores benefícios, tanto no que diz respeito à redução da poluição quanto do preço dos combustíveis, são percebidos na capital paulista e em Campinas, regiôes em que o diesel é mais caro do que no resto do Estado e que têm maior potencial de substituição por GNL. Nossos resultados mostram que, na cidade de São Paulo, o GNL pode ser até 60% mais barato que o diesel”, disse à assessoria de comunicação do RCGI Dominique Mouette, professora da Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH) da USP e autora principal do estudo.

Mouette coordena no centro um projeto que estuda a viabilidade de implantar um “corredor azul” no Estado de São Paulo, conceito surgido na Rússia para designar rotas nas quais os caminhôes usam o gás natural liquefeito em vez de diesel. Resultados recentes da pesquisa foram publicados na revista Science of Total Environment.

O GNL é obtido por meio do resfriamento do gás natural a -163 ºC. O processo de condensação reduz o volume do combustível em até 600 vezes, tornando possível o transporte em carretas criogênicas até mesmo para locais distantes de gasodutos.

Na pesquisa, foram analisados quatro cenários de substituição do combustível.

“No melhor deles, a adoção do GNL reduziria em até 40% o custo do combustível, 5,2% as emissôes de CO2 equivalente [medida usada para comparar o potencial de aquecimento de vários gases de efeito estufa]; 88% as de material particulado; 75% as de óxidos de nitrogênio; e eliminaria as emissôes de hidrocarbonetos”, disse Pedro Gerber Machado, pesquisador do Instituto de Energia e Ambiente (IEE) da USP e coautor do artigo.

“A metodologia considerou inicialmente dois contextos: um para as regiôes geográficas servidas por gasodutos, denominado cenário restrito (RS); e outro abrangendo as 16 regiôes administrativas do estado, chamado de cenário estadual (SS). Os dois contextos originaram diferentes versôes do corredor azul, com respectivamente 3,1 mil e 8,9 mil quilômetros de estradas”, explicou Machado.

Segundo ele, para cada cenário foram consideradas duas formas de distribuição de GNL: a primeira foi a liquefação centralizada com distribuição rodoviária, que gerou dois subcenários, um com liquefação centralizada (SSCL) e outro restrito, com liquefação centralizada (RSCL). E a segunda forma de distribuição seria a liquefação localmente, na região em que o combustível seria usado, o que dispensaria a necessidade de distribuição de GNL por rodovias. Dela derivam dois outros subcenários: o estadual, com liquefação híbrida local e central (SSHL), e o restrito, com liquefação local (RSLL).

 

Custos comparados

“O cenário denominado RSLL apresenta a menor média de diferença de preço para o consumidor final entre o GNL e o diesel, o que significa que, neste caso, o processo de entrega do gás é mais caro por questôes de escala e de custo operacional”, disse Machado.

Já o cenário RSCL oferece o menor preço de gás para o consumidor final: US$ 12 (RS$ 46) por MMBTU (milhão de unidades térmicas britânicas), ao passo que o diesel, neste mesmo cenário, custaria US$ 22 (R$ 84,5) por MMBTU.

“A diferença entre o preço do GNL e do diesel nesse cenário também é a maior de todas: US$ 10 [R$ 38] por MMBTU”, disse o pesquisador.

Entretanto, o cenário RSLL foi desenhado no contexto de um corredor com menor extensão e o investimento seria de US$ 243,4 (R$ 940) por metro. Ao contrário do que acontece no SSHL, que tem o menor valor de investimento por metro entre os quatro subcenários (US$ 122,1 ou R$ 470 por metro).

 

Emissôes evitadas

Segundo Machado, para o cálculo das emissôes dos gases de efeito estufa e dos poluentes foram levados em conta apenas os dois macrocenários: o estadual (SS) e o restrito (RS).

“Quando se trata do uso de GNL, as emissôes de gases de efeito estufa diferem das de diesel por conta do metano e do óxido nitroso, ambos com potencial de aquecimento global. Se o combustível usado é o diesel, o dióxido de carbono é responsável por 99% das emissôes de CO2-eq. No entanto, se usado o GNL, o CO2 representa 82% das emissôes de CO2-eq, enquanto o metano é responsável por 10% e oóxido nitroso, por 8%”, disse.

No que se refere às emissôes de gases de efeito estufa resultantes da logística de transporte do GNL, o pior cenário foi o SSCL, que corresponde a 1% do total de CO2-eq emitido com o uso de caminhôes. No SSHL, a logística representa 0,34% das emissôes, e no RSCL, a logística corresponde a 0,28% das emissôes.

Quanto aos poluentes, no cenário RS seriam evitadas 119.129 toneladas de emissôes de material particulado, 7,3 milhôes de toneladas de óxidos de nitrogênio e 209.230 toneladas de hidrocarbonetos. No cenário SS, os benefícios são ainda maiores, com redução de 163 mil toneladas de material particulado, 10 milhôes de toneladas de óxidos de nitrogênio e 286 mil toneladas de hidrocarbonetos.

Na avaliação dos autores, a redução de 5.2% nas emissôes de gases de efeito estufa observada no cenário estadual, quando se compara a combustão de gás natural e a de diesel, talvez não seja um resultado tão grandioso, mas há reduçôes consideráveis dos poluentes locais, como óxidos de nitrogênio (75%), material particulado (88%) e hidrocarbonetos (100%).

Apesar das vantagens econômicas e ambientais apresentadas, o GNL ainda enfrenta barreiras regulatórias para sua utilização generalizada no setor dos transportes.

“Ele não é regulamentado como combustível de veículos no Brasil. A maioria do GNV [gás natural veicular] usado é gás natural comprimido, o GNC”, disse Mouette.

O artigo “Costs and emissions assessment of a Blue Corridor in a Brazilian reality: The use of liquefied natural gas in the transport sector“, de Dominique Mouette, Pedro Gerber Machado, Denis Fraga, Drielli Peyerl, Raquel Rocha Borges, Thiago Luis Felipe Brito, Lena Ayano Shimomaebara e Edmilson Moutinho dos Santos, pode ser lido em: https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0048969719307533.

Indique esta página
Poderá também gostar de:
img
Formas de vida antigas despertaram após 40.000...
img
Mudanças climáticas ameaçam progresso no...
img
Para matar ratos, EUA querem jogar quase 1,5...
img
Cada vez mais cidades declaram estado de...
img
Submarino que pegou fogo no Ártico poderia ter...
img
Por que é erro científico usar dias frios para...
img
Vale é condenada pela 1ª vez por danos da...
img
JEFF BEZOS, FUNDADOR DA AMAZON E BLUE ORIGIN,...
img
Brasil e EUA lideram retrocessos ambientais,...
img
Sudeste Asiático se revolta contra os resíduos...
img
SUBSTITUIÇÃO DO DIESEL POR “GNL” PERMITIRIA ATÉ...
img
AS 20 MELHORES E AS 10 PIORES CIDADES NO NOVO...
img
ALGUNS RIOS ESTÃO TÃO POLUÍDOS POR DROGAS QUE...
img
90% DO PLÁSTICO NOS OCEANOS VEM DE APENAS 10 RIOS...
img
Monsanto vai a julgamento nos EUA por agrotóxico...
img
Arqueólogos descobrem a cidade de Siló, onde...
img
Brasil precisa reduzir drasticamente consumo de...
img
Em 20 anos, extremos climáticos custaram US$ 3,5...
img
Indianos estão deixando Nova Deli para fugir da...
img
Volkswagen diz que última geração de motores a...
img
Casais que moram juntos antes do casamento têm...
img
Quem mais gera lixo no mundo, e quem mais sofre...
img
Ambientalistas tentam evitar que Belo Monte cause...
img
Pesquisador quer construir muralha para impedir...
img
Três coisas que podemos fazer para evitar que a...
img
Ondas de calor serão mais intensas e já refletem...
img
Com as ondas de calor que Europa passa, temporais...
img
Brasil, o país mais letal para defensores da...
img
Grécia procura respostas para a...
img
Mundo deve ter onda de calor a cada dois anos;...
Page 1 of 693
Mais Notícias...