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20/04/2018Documentário “Frágil Equilíbrio” chega ao Brasil: imagens reais que ilustram as reflexôes de Pepe Mujica

 
 
As cenas são fortes. Não dá para ficar impune, às vezes é difícil até se lembrar de respirar enquanto se assiste ao “Frágil Equilíbrio”, documentário dirigido por Guillermo Garcia Lópezque está chegando agora ao Brasil pela internet. Assisti nesta quarta-feira (18) pela manhã, numa apresentação para a imprensa seguida de entrevista coletiva com os produtores Pablo Godoy-Estel e Marina García López no Instituto Cervantes, em Botafogo.
 
A história do documentário começa quando o diretor tem a ideia de acompanhar com imagens as reflexôes lúcidas do ex-presidente uruguaio Pepe Mujica. Como se sabe, Mujica não poupa críticas, embasadas e com conteúdo, ao sistema econômico que nos rege os dias atuais, ao “Deus Mercado”, à civilização como está posta. E não deixa pedra sobre pedra aoreagir contra os governantes que só administram seus países com intenção de se perpetuar no poder.
 
“Com uma disputa inútil pelo poder, não solucionamos os problemas da humanidade”, diz Mujica.
 
O documentário foi filmado durante três anos em três continentes diferentes: no Uruguai, Japão, Espanha, Marrocos, México, Hong Kong, Estados Unidos, Qatar, Reino Unido e Chile. Não há ficção, é mesmo um choque de realidade que nos chega, por exemplo, através da rotina de dois executivos japoneses em Tóquio, cidade com maior PIB do mundo, um dos maiores centros financeiros de alcance global.Em conversa informal, que Marina Garcia López garantenão ter sido roteirizada, os dois passam a vida a limpo e um deles percebe o quão inútil têm sido seus esforços para conseguir sair do círculo vicioso de insatisfação em que se encontra:
 
“Comprei um carro para rodar pelas estradas e ir muito longe, mas ainda não rodei, em dois anos, nem dez mil quilômetros. Comprei uma casa, está organizada, mas não tenho tempo de ficar nela”, diz ele.
 
O homem, visivelmente cansado, conta que dorme duas ou três horas por noite apenas, já que precisa cumprir carga extra no trabalho, rotina que não é incomum no mundo ocidental. Nos fins de semana ele pega uma cerveja e se pôe diante do computador para resolver outros problemas que surgem e que são de sua responsabilidade no local onde trabalha. A câmera o acompanha na “hora de lazer” e o homem se pôe a jogar numa dessas máquinas histéricas, um jogo igualmente tenso, como ele.
 
“Um amigo meu se matou dia desses. E eu às vezes penso nisso também”, comenta com o colega executivo.
 
As cenas mais fortes do documentário foram filmadas na África. Homens e mulheres de uma comunidade subsaariana no Monte Gurugú, perto da fronteira entre o continente africano e a cidade espanhola Melilha, enfrentam com braveza os muros altos construídos para evitar que eles entrem na Europa. Seu passaporte, conta um deles, é o tênis, que recebe pregos para ajudar a escalar o muro. Há pessoas sendo espancadas pelos guardas, humanos que são pagos para “proteger” os ricos dos pobres. Um morre, outro perde o olho. Uma mãe tenta, desesperadamente, fazer subir uma criança para que ela alcance o “lado da prosperidade”.
 
Quando conseguem chegar à Europa, os africanos comemoram com danças e urras. A câmera acompanha tudo, foi um empréstimo de amigos à produção do “Falso Equilíbrio”. Para os africanos, é uma vitória. Sabemos todos que essa alegria vai durar até o momento em que se vejam confinados num campo qualquer, dormindo em barracas, comendo pouco, sem higiene e sem direito de ir e vir. Nem de longe alcançarão as falsas promessas do sistema econômico que prioriza aqueles cujos méritos correspondem aos anseios do mercado.
 
Em conversa com a câmera, ainda no Monte Gurugú, antes de tentar a passagem pelo muro que pode lhe tirar a vida, um dos africanos mostra total conhecimento do absurdo que é seus conterrâneos estarem numa situação falimentar,  num continente tão rico e que tanto fez pela vizinha Europa. Ao mesmo tempo, o homem quer abandonar sua terra e, legitimamente, se rende ao capital, afirmando que precisa estar “do outro lado do muro” para se sentir incluído o que, em seu caso, significa ter o que comer três vezes por dia, ao menos. É o que prometeu aos familiares quando saiu de casa, não pretende voltar sem ter cumprido.
 
“A Europa vai acabar mulata. É uma questão de tempo”, diz Mujica.
 
A câmera mostra o grupo de africanos em volta de uma lata que está no fogo a fritar cebolas. Preparam-se para comê-las com algum outro alimento que não se identifica. São dois homens e um deles dá um conselho útil ao amigo: “Coma devagar. Isso é para durar”.
 
A cena seguinte deixa o espectador próximo à rotina alimentar de um executivo japonês, o mundo dos ricos. Solitário, ele compra um mero sanduíche, degustado numa praça sem muito entusiasmo. O mundo regido pelo mercado, que segundo Mujica, despreza a liberdade individual, também costuma tirar das pessoas o ânimo para viver. Não à toa, o executivo conta que seu amigo acabara de cometer suicídio. Fala isso enquanto fecha os olhos tentando buscar em si a coragem para mudar de vida.
 
“Talvez eu faça isso amanhã”, diz, sem uma gota de vontade, e mostrando quão pobre de alternativas ele pode estar naquele instante.
 
A desigualdade, marca do sistema econômico atual, está estampada em cada quadro do documentário que pretende, segundo Pablo Godoy-Estel, fazer uma reflexão sobre “o caminho que a humanidade está tomando em seus hábitos, usos e formas de se relacionar com o mundo”.
 
Mujica demorou para aceitar a ideia de costurar pensamentos sobre imagens, proposta por Guillermo Garcia López. Quando decidiu, pôs-se a conversar durante uma hora e meia com a câmera. Reflete sobre ideias pré-concebidas e desconstrói algumas verdades, como a que dá aos índios a alcunha de “atrasados”, o que considera extremamente discutível face aos poucos resultados positivos que a nossa civilização vem alcançando para melhorar a vida dos miseráveis. Ao mesmo tempo, percebe mudanças de atitude que vai pontuando, aqui e ali, em pensamentos que não podem ser contestados, já que são embasados em realidades indiscutíveis:
 
“A revanche dos pobres está na fertilidade de seus ventres”.
 
“O santo poder da propriedade está colado em cima dos valores da vida”.
 
“Em quase todas as constituiçôes está o direito de moradia. Mas estamos longe de cumpri-lo”.
 
O mundo ocidental, dos países ricos, é visitado pelas câmeras de “Frágil Equilíbrio” para comprovar que ali também, em terras férteis, a pobreza chegou. Ali, a escravidão é imposta pelas leis do mercado, os negócios quase têm mais valor do que a vida.A democracia é posta em xeque.
 
“Nossa democracia é mentirosa. Se nos prendemos ao sentido mais antigo, do grego, é ‘governo do povo’. Qual o povo que governa?”, pergunta ele.
 
Vale a pena assistir ao documentário e aceitar o convite para a reflexão.
 
Video:
 
Fonte: G1 , Amelia Gonzalez 

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